SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA – No início desta quarta-feira, a movimentação na beira-mar entre as praias de Manguinhos e Barrinha mudou a rotina de moradores e pescadores locais. Uma ossada humana foi descoberta após a erosão causada pela maré remover parte da areia da duna, revelando vestígios que podem ter valor histórico.
Detalhes do achado
A Polícia Militar já está no local e isolou o perímetro,
aguardando a chegada da perícia da Polícia Civil e de técnicos especializados.
Segundo informações preliminares, os restos mortais não foram encontrados em
cova aberta recente, mas sim emergiram do terreno devido à ação da natureza.
- O
que foi visto: Até o momento, apenas a parte inferior de um crânio e
dois ossos longos (aparentemente de uma perna) estão visíveis.
- Localização
exata: A ossada está no final da praia de Manguinhos. Importante
ressaltar que o ponto fica no lado oposto ao sítio arqueológico já
conhecido na região.
- Estado
dos ossos: Testemunhas e moradores que passaram pelo local afirmam que
o desgaste do material sugere que os restos mortais estão enterrados há
décadas ou até séculos.
Hipótese de Sítio Histórico
A descoberta levanta imediata curiosidade e cautela. A
região de Manguinhos é historicamente conhecida por abrigar um sítio
arqueológico com esqueletos de escravizados vindos de navios negreiros que
naufragaram ou aportaram na costa fluminense no passado.
"Pelo desgaste dos ossos, parece estar aqui há muito
tempo. Pode ser que tenhamos encontrado um novo ponto histórico ou a extensão
do que já conhecemos", afirmou um morador que preferiu não se identificar.
Próximos Passos
Embora a especulação sobre a ligação com o período da
escravidão seja forte, ainda não há confirmação oficial. Somente após a
perícia técnica e, possivelmente, a intervenção de arqueólogos do IPHAN
(Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), será possível
determinar:
- A
idade aproximada da ossada.
- A
causa da morte.
- Se o
local deve ser catalogado como um novo sítio arqueológico.
A ocorrência segue em andamento e a área permanecerá sob
custódia policial até que todos os procedimentos de remoção ou estudo in
loco sejam concluídos.
O Contexto Histórico: O "Porto Clandestino" de
Manguinhos
A região de Manguinhos não é um ponto comum no litoral
brasileiro; ela carrega as marcas de um dos capítulos mais sombrios da história
nacional.
- Ponto
de Desembarque Clandestino: Após a proibição do tráfico de
escravizados pela Lei Eusébio de Queirós (1850), Manguinhos tornou-se um
porto estratégico para o tráfico ilegal. Por ser uma área de difícil
acesso e longe da fiscalização da Corte, muitos navios negreiros aportavam
ali para descarregar cativos.
- O
Cemitério dos Pretos Novos do Norte: Historiadores apontam que os
africanos que não resistiam à brutal travessia do Atlântico, ou que
morriam logo após o desembarque devido à exaustão e doenças, eram
enterrados em valas comuns nas dunas da orla.
- A
Origem do Quilombo de Barrinha: A história local é rica em relatos
orais de que o vizinho Quilombo de Barrinha foi fundado por sobreviventes
desses navios, que conseguiram escapar para as matas logo após tocarem o
solo brasileiro.
Detalhes do Sítio Arqueológico Existente
Desde a década de 1990, o IPHAN (Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional) reconhece a existência de um sítio arqueológico
em Manguinhos.
- Em
ressacas passadas, crânios e ossos longos já haviam sido expostos,
confirmando a existência de um cemitério histórico na beira-mar.
- A
ossada encontrada agora, situada no final da praia em direção à Barrinha,
sugere que o território ocupado por esses sepultamentos pode ser muito
maior do que o delimitado anteriormente.
O Que Dizem as Testemunhas
Moradores relatam que os ossos apresentam um desgaste severo
e uma coloração que indica estarem enterrados há muito tempo. Segundo um
morador da área:
"Sempre ouvimos dos antigos que essa praia 'devolve' a
história quando o mar bate forte. Não parece ser algo recente; o osso está
muito poroso, integrado à areia."
Próximos Passos e Preservação
A Polícia Civil deve realizar a remoção técnica para
análise. Caso se confirme a antiguidade do material, o caso passará para a
esfera federal, envolvendo arqueólogos e historiadores para a preservação do
local.
Importante: Especialistas alertam que qualquer pessoa
que encontrar ossadas não deve removê-las por conta própria. Além de ser uma
infração legal mexer em sítios arqueológicos, a posição e o contexto em que o
osso é encontrado são fundamentais para que a ciência conte a história dessas
pessoas.

