O Blog publica abaixo o artigo “Manguinhos” do professor
e ambientalista Arthur Soffiati, em que aborda a erosão do litoral e o avanço
do mar em alguns pontos entre a Foz do Rio Itapemirim, no Espírito Santo e a do
Rio Macaé no Estado do Rio de Janeiro. Soffiati escreveu esse artigo após um
recente avanço do mar na Praia de Manguinhos. O local é estudado pelo professor
desde a década de 80.
Sobre o avanço do mar em Manguinhos, Soffiati lembra que
as casas foram construídas sem que respeitasse o limite de 300 metros a contar
da maré alta. Ele não acredita que intervenções
costeiras tenham provocado o fenômeno.
Entretanto, outro caso de avanço do mar recente, ocorrido
na Praia do Açu, segundo Soffiati, tem como causa determinante o Complexo
Portuário do Açu. O ambientalista analisa também o assoreamento da Foz do Rio
Itapemirim, em Marataízes, atribuindo o problema ao espigão de pedra construído
pelo Poder Público. Sobre o avanço do Mar em Atafona, o ambientalista aponta
como fator a perda de vazão do Rio Paraíba, o desmatamento da bacia como um
todo e as barragens construídas no rio principal e nos rios da bacia.
Como instrumento democrático do jornalismo responsável, o
Blog se coloca à disposição para ouvir um contraponto das partes citadas no
texto.
Boa leitura!
Manguinhos
Arthur Soffiati
Morando em Campos desde 1970, só conheci a Praia de
Manguinhos no início da década de 1980. Desejávamos comprar uma casa numa praia
calma do Norte Fluminense. Indicaram-nos Manguinhos, que, à época, fazia parte
do Município de São João da Barra. Ao chegarmos ao local, minha atenção foi
voltada para o pequeno centro e pela única rua paralela à praia, com casas de
um lado e de outro.
A partir de 1996, a praia entrou profundamente nos meus
estudos, pois eu redigia minha tese de doutorado sobre os manguezais da região
que se estende do Rio Itapemirim, no Espírito Santo, ao Rio Macaé, no Estado do
Rio de Janeiro, que passei a denominar Ecorregião de São Tomé por coincidiram
seus limites com a Capitania de São Tomé, doada a Pero de Góis, e por sua
grande unidade ecológica.
Em minhas longas caminhadas pela costa, topei com uma
córrego na ponta norte de Manguinhos, já muito adulterado, com alguns pés de
mangue branco bastante anômalos em relação ao padrão normal. Em vez de
crescerem em zig-zag, os galhos se desenvolvem em forma de touceira. A
localidade se cresceu acima da ponta norte da grande restinga formada pelo mar
e pelo Rio Paraíba do Sul. Manguinhos situa-se em terreno de tabuleiro, uma
formação antiga estimada em 60 milhões de anos, constituída por material
transportado da zona serrana. Sua configuração é ondulada e, a partir de
Manguinhos, formam-se falésias no tabuleiro, verdadeiros paredões de argila e
concreções ferruginosas que se estendem até o Estado do Amapá.
No trecho costeiro de Manguinhos até o Rio Itapemirim, o
mar avançou sobre o tabuleiro, formando antigas praias com o material geológico
mais duro numa costa desprovida de pedras. E na sua extremidade setentrional,
desemboca o córrego que aporta água doce que, em mistura com a água salgada do
mar, forma água salobra apropriada para o desenvolvimento de um manguezal,
embora muito restrito. O nome do lugar deve ser atribuído a ele.
Esse córrego tem sua nascente no próprio tabuleiro e
conta apenas com um afluente. Talvez contasse com um segundo, que, pouco a
pouco, foi separado do curso d'água principal. Ele descreve um acentuado
meandro antes de chegar ao mar. Tanto a agropecuárias quanto interesses
imobiliários barraram o sistema hídrico, principalmente para formar uma lago
para recreação. Sobre a foz, havia uma ponte com acesso subdimensionado para
água doce e a água salgada, dificultando o desenvolvimento do manguezal.
Manguinhos foi praia de desembarque de escravos trazidos
da África depois de proibido o tráfico pelas Leis Euzébio de Queiroz (1850) e
Nabuco de Araújo (1854). O principal traficante era André Gonçalves da Graça,
que morava em São João da Barra, tinha casa em Gargaú e transportava os
escravos para a Fazenda São Pedro, hoje integrante da Estação Ecológica
Estadual de Guaxindiba. Os que morriam eram enterrados na Praia de Manguinhos. Recentemente,
o movimento do mar desenterrou um verdadeiro cemitério de escravos.
Por duas vezes bem distintas, presenciei o avanço do mar
e a erosão da praia. Na primeira, eu estava na companhia do Professor e
limnólogo Francisco de Assis Esteves, da UFRJ. Levantou-se a possibilidade da
contribuição do Córrego de Manguinhos no processo erosivo, mas logo descartada
pela ínfima vazão dele. Recebo agora fotos de Ana Maria Siqueira, residente em
São Francisco de Itabapoana, registrando um novo avanço do mar e um processo
erosivo mais intenso que o anterior.
Qualquer solução para processos erosivos periódicos e
permanentes, bem como grandes empreendimentos, na costa que se estende do Rio
Itapemirim ao Rio Macaé, deve ser muito pensada porque esta costa não contém
formações pedregosas, como acima e abaixo dos rios mencionados. Trata-se de uma
costa nova, baixa, lisa e frágil. Procurem pedras e baías nelas e não
encontrarão. Essa costa é imprópria para a construção de grandes obras. Onde
elas são efetuadas, ocorrem problemas. Nessa costa, além de Manguinhos,
registram-se quatro pontos de erosão. Do norte para o sul, são os seguintes.
1- Marataízes, no Espírito Santo: tudo indica que a
erosão, ali, foi provocada por um pier (espigão de pedra) construído na margem
direita da foz do Rio Itapemirim para estabilizar o canal do rio e permitir a
entrada e saída de embarcações. O resultado parece ter sido desastroso por não
ter sido a obra precedida de estudos prévios de impacto ambiental. O espigão
passou a reter areia e a assorear a foz do rio. Por outro lado, a areia que se
depositava na praia do centro do Marataízes, não chegando mais a ela, passou a
sofrer erosão do mar. A solução do problema foi muito cara para os cofres
municipais: a construção de uma praia com pedras amarradas por uma rede de aço
e areia lançada sobre ela.
2- Delta do Rio Paraíba do Sul: especialistas, como
Dieter Müehe, Enise Valentini e Cláudio Neves atribuem a erosão do delta a
perda de vazão do rio e a sua incapacidade de enfrentar a energia do mar. A
perda de vazão seria resultado do desmatamento da bacia como um todo e das
barragens construídas no rio principal e nos rios da bacia.
3- Açu: Parece não haver dúvida de que a erosão na praia
do Açu e no Cabo de São Tomé se deve ao Complexo Industrial e Portuário em
construção na região. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) do estaleiro do Açu,
um dos empreendimentos do complexo, previu processos erosivos sem precisar o
local. Construídos os dois espigões do estaleiro, a praia do Açu e o Cabo de
São Tomé começam a sofrer erosão do mar. A Prumo, que comprou grande parte do
complexo, contratou o especialista em dinâmica costeira Paulo Cesar C. Rosman,
que garantiu não estar a erosão relacionada com o Complexo do Açu. No entanto,
os pesquisadores Marcos Antonio Pedlowski, da UEF, e Eduardo Bulhões, da
UFF/Campos, asseguram essa relação.
4- Barra do Furado: não há dúvida de que o prolongamento
do Canal da Flecha mar adentro por dois píeres construídos nos anos de 1980
pelo Departamento de Obras e Saneamento retém sedimentos arenosos do lado de
Quissamã, engrossando a praia e erode a Praia de Boa Vista, do lado de Campos.
A erosão da Praia de Manguinhos não pode ser atribuída a
nenhuma intervenção costeira, pois se situa distante de dois pontos de
acentuada erosão: Marataízes e o Delta do Paraíba do Sul. Só por conjecturas,
podemos explicá-la. Lembremos que a praia era maior em torno de dez mil anos
antes do presente e que o avanço (transgressão) progressivo do mar estreitou a
faixa de areia.
Quando Manguinhos foi colonizada, a rua paralela à costa
foi construída de ambos os lados. A legislação vigente determina que se deve
deixar livre uma faixa de 300 metros a contar da maré alta. Na época, não
existia tal obrigatoriedade, dificilmente respeitada nos dias de hoje, mas já
havia a exigência de se construir apenas de um lado da rua. Búzios sofreu esse
problema, com casas bloqueando o acesso à praia. Em caso de ressaca, as casas
próximas do mar podem ser danificadas. É o que está acontecendo em Manguinhos.
Eventos de erosão podem se agravar com a instalação do
anunciado Porto de Canaã, ao norte de Manguinhos, pois intervenções no mar
estão projetadas. A maior delas se assemelha a uma colher voltada para o sul,
que pode reter areia em direção a Manguinhos, assim como o Terminal Portuário
(TEPOR) que se pretende instalar em Macaé, no mesmo trecho de costa que
examinamos aqui.
Por fim, fica a proposta de criação de Área de Proteção
Ambiental (APA) de Manguinhos, tipo de Unidade de Conservação que mais se
ajusta à praia. Ela protegeria o próprio Córrego de Manguinhos, seu afluente,
as manchas de vegetação nativa, o manguezal e o cemitério indígena.
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Erosão na Praia de Manguinhos |
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Córrego de Manguinhos em cheia no passado, em que a ponte foi arrastada. (Fotos: Arthur Soffiati)
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2 comentários:
Excelente reportagem, parabéns.
MUITO OBRIGADO PELA DIVULGAÇÃO.
ARTHUR SOFFIATI
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